terça-feira, 29 de setembro de 2026

MOLOCH E O SACRIFÍCIO ERÊ

Uma pessoa muito querida perguntou o seguinte:

[09/08, 09:31] ***: O que representaria o bebê sacrificado por Moloch?
[09/08, 09:31] ***: Uma besta?
[09/08, 09:31] ***: Viraria uma besta?
[09/08, 09:32] ***: No contexto de troca e sacrifício

A conversa se encaminhou de maneira exploratória e, posteriormente, criativa. Dessa conversa, surgiram temas e subtemas que se fazem relevantes ao serem abordados no âmbito das Escolas da Psiquê do Sistema Magister-CyberaConS. Ao colocar o assunto no âmbito do Magister-CyberaConS e retirá-lo do âmbito místico, espiritual, cultural e folclórico, é possível fazer uma abordagem transcendental, ora seletiva, ora expansiva.

No presente momento, pode ser prazeroso e útil ler esse texto como se lesse um conto ou assistisse a um filme, sem a expectativa de corresponder à religião, à tradição ou à “vida real”. Assim, a receptividade passa a ser predominante e, nesse estado, podem surgir esplendor e fascínio por meio da surpresa e, quem sabe, até mesmo ocorrer insights e catarse. Nessa condição, abordar a espiritualidade e o sobrenatural, relacionando-os com aspectos internos e externos de nós mesmos e do coletivo, certamente será satisfatório, começando “pelo começo”, até chegarmos cada um a sua Órbita.

ANTES DE DEUS, TUDO ERAM DEUSES

Parece que uma “politicagem” fez a espiritualidade e a religião sofrerem danos ao longo da história. Independentemente de ser favorável ou não ao ser humano, assim foi e é; porém, não perceber isso gera danos. De antemão, tendo Moloch como protagonista deste texto, vamos adiantar: na época dos cultos a Moloch (tal como descrito em tradições antigas e difundido no âmbito judaico-cristão), todas as deidades eram “deuses” e tinham fiéis. O que hoje é chamado de “Deus” era apenas mais um, e tinha seus fiéis. Mas a teo-politicagem conduziu ao cenário atual, com o diabo, Satanás e um Deus todo-poderoso. Vale ressaltar que há lugares no mundo, hoje em dia, onde esse deus que dizem ser Deus mais se assemelha a um ato golpista. Esclarecido isso, entenda o porquê desta narrativa.

Moloch, enquanto divindade arcaica do Levante, remete aos cananeus e fenícios de séculos passados, aproximadamente no século IX antes da Era Comum (AEC). O que hoje é chamado de “Deus”, assim como Moloch, eram deidades entre tantas outras; havia um convívio no qual muitos deuses coexistiam. De maneira geral, não se odiavam os deuses alheios tanto quanto se odiavam os inimigos humanos, devotos de outras divindades. Percebam que havia espaço para odiar os deuses, sem que necessariamente se impusesse a ideia de que apenas o próprio Deus é “verdadeiro” e os demais seriam o “diabo”. Percebam, também, que a questão era muito mais geopolítica do que teológico-dualista. Para eles, não se tratava de adoração ao "mal", mas de estrita diplomacia cósmica.

HENOTEÍSMO

O henoteísmo é uma forma de crença ou prática religiosa em que o fiel adora ou reverencia uma deidade suprema específica, sem, contudo, negar a existência ou a realidade de outras deidades. Está situado conceitualmente entre o politeísmo (culto igualitário a múltiplos deuses) e o monoteísmo estrito (crença na existência de um único deus e na invalidação de todos os outros).

Essa era uma estrutura comum nas religiões do mundo antigo, onde um povo elegia ou priorizava uma deidade como soberana para sua proteção e/ou prosperidade sem, com isso, invalidar a existência dos deuses de outros povos.

CULTO E ADORAÇÃO A MOLOCH

Para compreender o culto a Moloch antes da demonização bíblica, precisamos fazer um exercício de "arqueologia da consciência": é necessário suspender o nosso julgamento moral moderno (que vê o sacrifício como algo repugnante) e entender como aquelas sociedades da Idade do Ferro operavam. Também deve-se considerar que as deidades eram ambivalentes; não eram "boas" ou "más" no sentido moral moderno, mas poderosas e inconstantes, como a própria natureza.

Agora, vejamos sobre a palavra Moloch: muito provavelmente, enquanto linguagem, considerando a raiz semítica do termo, remetia a um culto a um Rei. Moloch talvez ainda não fosse uma deidade com o nome Moloch, mas sim uma deidade a quem se consagrava como Rei, em um ritual cívico-estatal. Era o governo tribal, ou da cidade, garantindo a continuidade da ordem, a fertilidade das terras e a proteção da linhagem real através de um pagamento extremo (sacrifício).

Até aqui, surgem ao menos dois aspectos a serem lançados, que posteriormente farão sentido e até servirão para preencher espaços na compreensão: a força antiga mobilizada nos cultos a Moloch tinha correspondência com a bajulação de deuses e com um alto sacrifício. Porém, lança-se aqui uma ironia retórica: alguém já tem conhecimento sobre o sacrifício de guerreiros essenciais para a tribo ou o Estado? Ou mesmo de líderes e gestores que fossem essenciais para o bem coletivo? Uma sugestão para “ampliar” a percepção seria estimar o sacrifício do melhor guerreiro, do melhor construtor, do mestre de caça ou de agricultura. No entanto, o sacrifício não incluía essas pessoas.

Outro aspecto a considerarmos é a descrição feita na Bíblia a respeito de Moloch, que difere das leituras de abominação feitas posteriormente: se o homicídio de crianças fosse combatido apenas como um crime comum, não haveria necessidade de fazer uma determinação específica de não entregar as próprias crianças para a consagração à deidade de tribos rivais e/ou inimigas (no caso, Moloch). O próprio mandamento “não matarás” já suprimiria isso; isto é, não seria preciso impor que os pais não entregassem seus filhos para sacrifícios se o ato fosse visto apenas sob a ótica de um assassinato civil. Se havia necessidade de uma imposição "divina" específica e repetida, então provavelmente as pessoas tinham inclinação a fazê-lo, vendo naquilo um ato de extrema devoção e não um mero crime contra a vida.

MONOTEÍSMO & PROSELITISMO: TODOS (MENOS UM) SE TORNARAM O DIABO

Se todas as deidades eram deuses, como um deles se tornou o Deus único (monoteísmo) e os demais deixaram de ser deuses para se tornarem demônios? Essa pergunta é retórica e, discorrer sobre ela diz respeito muito mais ao ser humano e à sociedade do que aos deuses. Mas, ainda assim, cabem algumas considerações relevantes que, embora não englobem a totalidade dos fatos que deveriam ser considerados, servem para a apreensão de nosso personagem principal neste texto.

Partamos de fatos acerca do ser humano. O que se sabe é que a história é escrita por quem vence a guerra, e os atuais conflitos geopolíticos nos fazem perceber a tendência de que a preservação dos próprios dogmas e a imposição dos próprios costumes, somando-se a interesses territoriais, técnicos e econômicos, façam com que as sociedades se voltem ferozmente para dizimar quem não lhes é submisso. Por vezes, o sincretismo ocorre, seja conciliando deuses e costumes; em outras, quando não se é possível apagar a história do adversário, faz-se a degradação deles e, acerca dos deuses, demoniza-se aqueles que não puderam ser apagados e esquecidos. Assim, ciclos e ciclos se repetiram e, a cada ciclo, o próprio “Deus” foi sendo ajustado para atender à expansão que caminhava (e talvez ainda caminha) lado a lado com o poder, a economia e a subjugação.

Essa subjugação religiosa e espiritual, no Ocidente, teve ação intensa, vigente ainda em nossa era, pelo pensamento judaico-cristão, que, de um modo geral, considera haver um Deus, estabelece mandamentos que ditam a fé e proclama um deus como onipresente, onipotente e onisciente, colocando as demais deidades como demônios. Antes de ser uma religião, é uma convenção social de uniformização de regras e costumes.

VOCÊ (E EU) FOMOS (DE) FORMADOS PELO MONOTEÍSMO JUDAICO-CRISTÃO

Na sequência da presente linha, há algumas perguntas retóricas, as quais são úteis para se pensar a respeito de maneira analítica: por que há insistência em desconsiderar e fazer de conta que nada acontecia enquanto o “Deus” atual era somente mais uma deidade entre as demais? Como estavam as Américas? Como estavam os nórdicos? Como estavam os países asiáticos? E a Índia? E os Polinésios? Então, o que acontecia nesses locais e com seus deuses simplesmente passa a ser demonizado ou reduzido a folclores, conforme os que escreveram a história os colocavam em suas narrativas?

Para avançarmos, teremos agora uma narrativa que já pode ter ocorrido com muitos: certa vez, um cristão, durante um proselitismo ativo, aborda uma pessoa na rua e pergunta:

— Deus te ama, posso orar por você?
— Não, eu não sou cristão.
— Quê? Ah, entendi, você não vai à igreja, né?
— Não vou à igreja e não sou cristão.
— Ah, você quer dizer que não pratica a religião, mas acredita em Deus.
— Não, eu não sou cristão e não acredito em Deus.
— Ah, tá! Mas você acredita num criador, né?

Essa narrativa descreve uma realidade: até para os não cristãos, há um pano de fundo que age como parâmetro, e pouquíssimas pessoas, durante seu desenvolvimento e maturação, possuem diversidade nesses planos de fundo a ponto de suas coordenadas não serem o tal “Deus”. Nesse contexto, até mesmo para ser “satanista” (no sentido de adotar a religião do Diabo, de Satanás, etc.) utiliza-se o “Deus” e sua narrativa bíblica, ainda que em contraposição. Se houvesse diversidade real no arcabouço de parâmetros sobre religião, não faria sentido haver um único Deus e uma enorme diversidade de deidades reduzidas à classe do diabo, pois muitas dessas divindades possuem contexto próprio e identidade própria, que só foram rebaixadas a uma classe inferior devido ao prevalecimento e aos abusos que não dizem respeito unicamente à religião e à espiritualidade, mas sim às complexidades das relações humanas. No Ocidente, essa complexidade das relações humanas usou como pano de fundo o monoteísmo judaico-cristão. Inclusive, o próprio Ocidente foi direta ou indiretamente moldado pelo monoteísmo judaico-cristão. Percebam que, nesse momento, além da supressão de religiões e deuses suprimidos pela doutrina judaico-cristã, estamos falando também da omissão de sistemas de espiritualidade onde a natureza tinha papel fundamental na cosmogonia.

De perguntas retóricas, agora as ferramentas utilizadas serão perguntas provocativas, e não devemos perder de vista o personagem principal: é Moloch, logo chegaremos especificamente a ele.

Como seria colocar proselitistas monoteístas judaico-cristãos para “pescarem fiéis” na Índia? E na China? E na Sibéria? E nas tribos indígenas da Floresta Amazônica? A história nos mostra que a espada e a pólvora, apoiadas na Bíblia, foram formas de se converter povos “bárbaros”; e, quando uma cultura é “forte” (principalmente se for militarmente forte), então não se ousa falar de demonização. Daí surgiram outras vias, como o catecismo, o sincretismo e até mesmo “não tocar no assunto”.

MOLOCH HOJE

Moloch tem espaço cativo no imaginário social, que infelizmente se formou como o culto de sacrifício de crianças. Para evitar desvios para polêmicas que não possam ser devidamente narradas aqui, cabem algumas simples menções a escritos da própria época dos cultos devotados a Moloch:

“À meia-noite, o Senhor feriu todos os primogênitos na terra do Egito, desde o primogênito de Faraó, que se assentava no seu trono, até ao primogênito do cativo que estava na prisão, e todos os primogênitos dos animais.”

“Assim diz o Senhor dos Exércitos: [...] Vai, pois, e fere a Amaleque, e destrói totalmente tudo o que tiver, e não o pities; porém matarás homens e mulheres, meninos e crianças de peito, bois e ovelhas, camelos e jumentos.”

“Agora, pois, mata todo o menino entre as crianças, e mata toda mulher que conheceu homem, deitando-se com ele. Porém todas as meninas que não conheceram deitar-se com homem, deixai-vivas para vós.”

“E tudo o que havia na cidade destruíram totalmente ao fio da espada, desde o homem até à mulher, desde o menino até ao velho, até ao boi e à ovelha, e ao jumento.”

Então, no que diz respeito a sacrifícios da deidade, ou para a deidade, vamos traçar uma analogia crítica: se, nos primórdios, o mesmo deus que se estendeu na história (e que é o mesmo da tradição judaico-cristã) matou crianças, mas já não mata mais e isso é visto como “normal”, então também deveria ser considerado normal para Moloch e seus fiéis, pois estes também já não realizam sacrifícios de crianças. Dito isso, alguém poderia argumentar: descobriu-se um sacrifício de crianças em um culto a Moloch feito há pouco tempo, logo eles ainda sacrificam crianças. Sobre isso, também cabe um contra-argumento análogo: não faz muito tempo, a mesma tradição judaico-cristã acumulou relatos de abusos e pedofilia de seus líderes religiosos e, infelizmente, neste exato momento, há muitas vidas ceifadas por ações oriundas dessa mesma tradição, cujos adeptos entendem estar travando uma luta espiritual em campos de batalha. Onde está a maior quantidade de sacrifícios de vida humana? Nos cultos a Moloch ou nas faixas de conflito pelo mundo? Nessa analogia, percebam que há muito mais sacrifícios humanos em andamento, em guerras que dizem não ser da carne. Inclusive, esses sacrifícios que acontecem em nome de Deus estão relacionados ao mesmo deus abraâmico. Considerando isso, já não faz tanto sentido focar no estigma do sacrifício de crianças no passado remoto, mas sim percorrer o que a figura de Moloch pode realmente nos revelar sobre a violência institucionalizada.

MOLOCH E O SACRIFÍCIO ALQUÍMICO

O que é chamado amplamente de Deus predominantemente refere-se ao deus abraâmico, que posteriormente se consolidou como o Deus do judaísmo, cristianismo e islamismo, que são três religiões monoteístas; e Moloch se tornou um dos símbolos de resistência e rebeldia para com esses sistemas. Embora Moloch esteja contido nesse contexto, ele não é (apenas) isso, mas é de fato uma deidade cultuada como despressurizadora desses sistemas, afinal, neles não há espaço nativo para as pulsões e para a natureza do ser humano, pois o espaço que reservam é por vezes sufocante. Ficar nessa ótica de contraponto é uma forma de protagonismo do deus abraâmico, e Moloch não atinge sua plenitude nessa sombra.

Para entender Moloch, é preciso compreender a sua Natureza, aquela que é irredutível, livre das atribuições indevidamente feitas na Bíblia e na mídia. Moloch é uma deidade de natureza social, afinal, seus cultos serviam indiretamente para demonstrar que, se a sociedade tivesse problemas que extrapolassem a sua própria existência, alguém seria sacrificado. Isso servia para que o medo de ser sacrificado pelo coletivo impedisse que o indivíduo ceifasse a própria vida ou, pior ainda, a vida tão preciosa de seu próprio filho. Isso induzia as pessoas a serem proativas e também a policiarem os demais, para que não chegassem ao ponto de haver sacrifícios individuais em prol do coletivo. O medo era uma ferramenta social mantida pelo medo. Mas isso ainda não era o cerne de Moloch.

Para se atingir o ápice de Moloch, havia algo muito mais terrível, que não era o homicídio (ainda que muitos homicídios ocorressem e ainda ocorram); a sombra terrível de Moloch envolve matar a infância, a criança que habita o ser humano até mesmo na vida adulta e na velhice. Moloch era terrível quando o sacrifício era feito por uma criança e também terrível quando feito por um adulto.

O sacrifício de Moloch na infância é aquele em que a criança passa a assumir responsabilidades que eram próprias de um adulto; ela morria enquanto pessoa cuidada e guardada por sua família e, de certa forma, pela sociedade, e passava a ter responsabilidades quase impossíveis de sucesso para uma criança. Alguém duvida de que Moloch operava ativamente na sociedade espartana? Crianças eram retiradas de suas famílias e colocadas em treinamentos e batalhas. Qual seria o futuro dessas crianças? Ou morriam no processo de formação militar, ou se tornavam, ainda na infância, guerreiras, sendo-lhes sacrificada a infância.

Em outras tantas sociedades, Moloch era uma deidade que, ainda que não fosse reconhecida por esse nome, vinha infalivelmente para as meninas, sendo o ritual muito natural: a menarca. Para muitas sociedades, a menarca representava o sacrifício da criança, pois, a partir dessa passagem, a menina fatalmente assumia a posição de mulher, ainda que sua vontade fosse persistir sendo criança.

O sacrifício de Moloch na vida adulta diz respeito a matar a criança que, porventura, tenha resistido para além da adolescência. Ironicamente, Moloch mata a mesma criança que é acolhida em psicoterapias. Se uma pessoa persiste em não assumir suas responsabilidades como adulto, a psicoterapia acolhe a criança que ainda está birrenta dentro do adulto e a ensina a ocupar o seu espaço devido, sem sufocar o adulto; enquanto Moloch, sendo terrível, assassina essa criança que insiste em sufocar o adulto.

Em seu estado irredutível, Moloch sacrificava a infância; e, em seu estado social, ele punia os indivíduos de uma sociedade para que cada um fosse colaborativo. Afinal, se houvesse necessidades e tivessem de recorrer a ele, alguém iria pagar, e poderia ser qualquer um, ou ainda pior, a criança de qualquer um.

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MOLOCH E O SACRIFÍCIO ERÊ

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